Marilia Alves fotografia

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Por que fotografia de parto?

Fui arquiteta na minha vida passada. E por vida passada, eu quero dizer que sou formada em arquitetura e urbanismo nessa vida mesmo. Desde que me entendo por gente, lembro da minha mãe usando sua câmera fotográfica a torto e a direito, era a fotógrafa oficial das festas de família e tenho dezenas de álbuns com a minha infância registrada. Nunca fui muito fã de ser o sujeito retratado, mas acredito que a minha paixão em estar por trás das lentes tenha nascido daí, observando a minha mãe. Já a paixão pela fotografia de parto nasceu acompanhando os passos de uma amiga.


Já estudando arquitetura, eu fotografava, sem coragem de fazer o salto para o lado de cá. Só a ideia de me nomear fotógrafa dava calafrios. O parto foi o que definitivamente me revelou que era isso que eu tinha que fazer da minha vida. Estava dedicada e miserável tentando fazer o estúdio de arquitetura que montei com amigos funcionar, quando minha grande amiga, ex-futura arquiteta, me convidou para fotografar um parto que ela estava doulando.


Eu pouco pensei sobre que tipo de parto eu gostaria de ter quando fosse minha vez de trazer uma criaturinha ao mundo, porque, apesar de nascer gente o tempo todo, esse assunto é evitado. Sempre viveu no meu reino da imaginação, onde eu teria um filho num futuro distante quando ele seria teletransportado do meu útero diretamente aos meus braços, sem dor e sem cirurgia. Gostava da ideia de gestar, mas o vídeo que eles mostram na escola para explicar um nascimento é aterrorizante, então, não, obrigada.
E foi assim até essa minha amiga, que até onde sei, sempre foi obcecada por maternidade, largou a faculdade de arquitetura para ser parteira! (aham... eu sei... como assim!? Assim mesmo.) Daí, cursando o curso de enfermagem, ela começou a trabalhar como doula. (Outro dia, eu explico melhor o que é uma doula, mas a lógica é: o obstetra cuida do parto, o pediatra, do bebê, as enfermeiras, do médico e a doula, da gestante.) De repente, uma porteira de conhecimento se abriu na minha frente, porque com ela, o assunto sempre girava em torno de mães, bebês, úteros, vaginas, placentas, e descobri que para parir com suas próprias regras, é preciso se programar muito! 


Ela começou a me mandar vídeos e fotografias feitos por fotógrafas com olhares sensíveis e não aterrorizantes como o da pessoa que fez aquele bendito vídeo didático. Claro que ainda não entendia qual era a fascinação dela por parto (ela acha a placenta a coisa mais maravilhosa!), mas pelo menos comecei a saber qual era a mecânica da coisa e enxergar sua beleza. Quando ela me chamou para fotografar sua doulanda, aceitei o desafio com curiosidade e medo. A sorte é que uma prima minha, também estava para parir e seria domiciliar.
Pois então, pedi para acompanhar o parto dessa minha prima em troca das fotografias e ela aceitou. Estudei bastante, estava super preparada para ver o que poucas mulheres tem oportunidade de ver antes de ter o próprio filho, mas eu não estava preparada para o furor que eu sentiria depois. Pro vício que o parto dá. Parece que a alegria emana da pele de todo mundo e fica vibrando no ar.

Eu fotografo partos porque é o mais próximo que eu já cheguei da força primitiva inerente ao gênero feminino. Uma força sensual e majestosa embalada em calor e dor
Eu fotografo partos porque o mundo precisa ver que a maneira ancestral de nascer não é nociva e existem várias maneiras de parir.
Eu fotografo partos para que mulheres redescubram que seus corpos são fortes e eles podem e eles conseguem
Eu fotografo partos para perder o medo da minha nudez.
Eu fotografo partos porque eles são parte da vida como qualquer outro momento.
Eu fotografo partos porque placenta é a coisa mais maravilhosa!

Parto é amor.