Marilia Alves fotografia

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Monte Olimpo (ou como viajar sem dinheiro)

A vontade de viajar, muitas vezes, não acompanha o valor monetário na conta bancária, mas fingir que não sabe disso e embarcar mesmo assim, pode render boas experiências. Esse foi o caso da viagem pela Grécia que fiz com amigos em 2012. Estávamos todos com pouca grana e dispostos a passar perrengue. Para viajar com pouca grana é preciso ter paciência, criatividade e prioridades. Sabíamos que não conseguiríamos chegar às ilhas mais badaladas, mas fizemos questão de comer boa comida local (comida grega é barata e deliciosa) e conhecer a Acrópole de Atenas. De resto, improvisamos.

Como toda boa história grega, essa iniciou no Monte Olimpo. Chegamos de Ryanair, em Thessaloniki, no norte da Grécia, ficamos o tempo suficiente para beber o tal do frappé grego (café gelado batido com leite e açúcar) e descemos de trem até Litochoro. A estação de trem fica no litoral, de lá se pega um ônibus que sobe os 5km até o centro da cidade. Litochoro é uma cidade pequena e bem equipada para o turismo, mas a impressão que ficou foi que seu principal atributo é ser a entrada do Parque Nacional do Monte Olimpo.

São muitas as opções de acomodação na cidade, com preços variados, mas nossa falta de recursos nos tornou ousados e decidimos procurar algum lugar para dormir dentro do próprio Parque. Fomos preparados com barraca, sacos de dormir e lanternas. A ousadia foi fundamental, porque não tínhamos a menor ideia se era permitido e nem se o Parque tinha horário de funcionamento (não tinha).

Adentramos o Monte Olimpo seguindo a trilha principal até encontrarmos uma gruta e decidirmos que aquele seria o nosso camping! Protegido do sol, da chuva e do vento, o nosso "hotel" saiu melhor que a encomenda.

Pensávamos que seríamos os únicos ali, mas apareceu um mendigo, simpático e doidinho, que também estava dormindo por ali e seria o nosso companheiro de dormida. Nossa piada mais recorrente foi sobre a ironia de um país em crise "onde até mendigo fala inglês!", porque uma coisa que esse cara fazia era falar. Rolou uma apreensão inicial, mas o cansaço e a crença no melhor das pessoas prevaleceu e resolvemos ficar ali mesmo e não desmontar tudo toda vez que saíssemos para um banho de rio ou para comer na cidade. Carregávamos o dinheiro e a câmera fotográfica e torcíamos pelo melhor.

Olimpo é a mais alta montanha grega e foi a primeira área a ser declarada um Parque Nacional. Obviamente, é super conhecida por sua forte relação com a mitologia grega, mas também tem uma importância ecológica reconhecida internacionalmente. Foi declarada "Olympus a Biosphere Reserve" pela Unesco, em 1981 e incluída pela Comunidade Europeia na lista de "The Most Important Birds areas of the European Community".

A nossa gruta, como tantas outras pela montanha, foram formadas devido ao degelo da neve (fomos no verão, zero neve), assim como alguns pequenos lagos periódicos. Muitos dos riachos são constantes durante o ano e devido a excepcional qualidade de suas águas, são direcionados diretamente ao abastecimento local de água, ou seja, não compramos água durante os três dias que passamos lá.

Para fechar nossa estadia no Parque, decidimos fazer uma trilha pela montanha até o Monastério de São Dionísio. Ele foi transferido para Olimpo, após a destruição do original pelos alemães, em 1943. Como fomos por dentro do Parque, passamos primeiro pela Agion Spilaion (caverna sagrada), que é uma nascente da água sagrada e onde ascetas viviam como heremitas.

É uma trilha muito bonita e equipada com pontes e degraus. É longa e sempre subindo, então é importante ter uma boa condição física, o que não era o caso de duas de nós (éramos quatro, dois fumavam e não foram esses dois que tiveram problemas haha), e estar carregando o peso dos equipamentos de camping não ajudou a melhorar a situação. Demoramos uma tarde inteira e quando finalmente chegamos ao Agion Spilaion, nossa primeira reação foi xingar um pouco, porque estávamos doloridas, mas não deixe a nossa reação te indispor contra esse programa.

Eventualmente, nos recuperamos e levantamos do banco de madeira onde havíamos decidido que seria o lugar da nossa morte, e nos aproximamos da construção que protege a nascente sagrada. Ao fechar os olhos e se concentrar nos sons da água, das folhas e dos animais e sentir o odor do bosque junto ao incenso que queimava junto a entrada da construção, foi possível compreender a importância daquele espaço sagrado desde a antiguidade. Nossa disposição foi salva e continuamos o trajeto até o monastério.  O monastério tem um museu que foi inaugurado em 1999 e os monges que residem lá, trabalham com agricultura orgânica e outros produtos como queijos, mel e ovos.

Começou a chover. Passeamos pelo monastério confiantes de que teria algum tipo de condução pública para nos levar a cidade, há 5km de nós. Adivinha só: não tinha. Quando um homem que trabalhava lá veio nos expulsar pois era hora de fechar, perguntamos como poderíamos voltar para a cidade e ele apontou para a trilha de onde havíamos saído. Uma trilha de degraus que havíamos demorado uma tarde para completar. Sem condições.

Decidimos descer pela estrada e tentar nossa sorte pedindo carona. Acabamos nos separando um pouco, para aumentar a probabilidade de que alguém nos ajudasse, pensando que acabaríamos nos dividindo em alguns carros (éramos três minas e um mino). Já estava resignada a descer toda aquela estrada a pé, quando um carro para do meu lado e do banco do carona, a Jacque me sorri triunfante! Ela conseguiu carona para os quatro com um monge de vinte e poucos anos, que não falava inglês e só ouvia música eletrônica no rádio. Mais sucesso impossível. Nos deixou em Litochoro, sãos e salvos.

Naquela noite, dormimos em um hotel.

O acesso ao Parque Nacional pode ser feito por Litochoro, Dion, Petra, Karya ou Kokkinopilos.

De Atenas ou Thessaloniki é possível chegar em Litochoro, Katerini ou Larisa por ônibus ou trem e pegar um transporte local da estação.

Endereço: Olympus National Park, Litochoro, Grécia

Telefones: 23520.83000

O Monastério de São Dionísio é aberto do nascer ao pôr do sol e é de fácil acesso a partir de Litochoro.